Uma das características do presidente Lula é a capacidade gerar polêmica com declarações inconsequentes – simplórias, em última análise. A mais recente aconteceu em meados de dezembro, quando, discursando acerca da necessidade de obras voltadas para suprir as carências de saneamento básico, ele disse que sua principal preocupação era saber se o povo estava na merda e, a partir daí, tirar o povo da merda.
A clareza verbal do presidente atendeu às expectativas do populacho, mas incomodou os ouvidos sensíveis das elites bem educadas. Estas argumentaram que o representante maior da República deve evitar o uso de vocabulário chulo de fácil compreensão para o populacho, mas desagradável aos costumes vigentes entre os habitantes dos trópicos afeitos aos modos e costumes mais refinados da civilização ocidental.

A maior parte dos furibundos críticos destacou que elegância e boas maneiras são fundamentais para o exercício da presidência da República. Estranhamente, nenhum deles lembrou o maior defensor e cultor da liturgia posto presidencial, o ex-presidente José Sarney. Foi ele, no exercício do cargo que lhe caiu no colo com a morte de Tancredo Neves, que sacramentou a ideia de que o poder máximo de uma nação corresponde a uma postura imperial onde desprezo e arrogância se travestem de requinte e tolerância democrática. Essencial também, naturalmente, o uso de jaquetões e tintura acaju na cabeleira, contribuições relevantes do pai de Roseana para o aprimoramento político e cultural do país.
Na visão do senador José Sarney, é desta forma que um grotesco coronel do sertão se transforma em presidente; assim se faz de um chefe de jagunços um estadista. Zelando pela boa imagem, nada há a temer, nem mesmo as palavras, reza a cartilha do ex-presidente, chefe do Senado da República.
As aparências, claro podem ser enganosas. Não existe problema, desde que o distinto público jamais tome conhecimento dos “enganos” perpetrados nos bastidores do poder (uma lição que o governador do DF, José Roberto Arruda, não assimilou com a devida seriedade).
Porém, no caso de Sarney foi o destemor, amparado nas certezas da pouca eficácia do tiro curto da indignação da grande mídia e da visão deficiente do Judiciário em relação as malfeitorias das elites políticas e empresariais, que fez com que o velho coronel maranhense, no apagar das luzes do ano, definisse 2009 como “um bom ano”.
Impossível conter a náusea e a revolta diante de tamanha desfaçatez, considerando a podridão moral e ética das suas ações políticas reveladas no decorrer do período. No entanto, uma análise isenta de emoções dá razão à avaliação do senador. Afinal, ele foi desmascarado, achincalhado e repudiado pela opinião pública e mesmo assim sobreviveu com arranhões mínimos. Desalojado momentaneamente do paraíso complacente onde habitam os canalhas da pátria – empresários desonestos, políticos corruptos, jornalistas venais et caterva – em menos de seis meses José Sarney desceu às profundas do inferno da execração pública e retornou impune e ainda influente nas decisões políticas que afetam toda a sociedade.

Talvez 2009 tenha sido um bom ano para José Sarney e a linhagem política econômica e social anacrônica e putrefata que ele representa. Já para os brasileiros de bem – aqueles que nunca desistem – 2009 foi um ano de uma luta que ainda não acabou. Para desconforto dos coronéis do sertão, dos capitães de indústria e dos generais das sombras, os clamores de protesto não dependem apenas da imprensa tradicional para se fazer ver e ouvir. A rede mundial de computadores radicalizou o exercício da democracia. A cada dia que passa engrossa o número de cidadãos que podem acessar espaços virtuais como este e expressar sua revolta com a injustiça e nojo e desprezo pelos políticos corruptos de todos os matizes ideológicos.
2010 é ano de eleição. Que Sarney e outros carrapatos semelhantes não se surpreendam quando a revolta até então expressa no espaço virtual da web se traduzir em ações sociais capazes de influir na realidade cotidiana.
Tremei, fariseus e canalhas da política. Não abandonamos nosso posto.
A luta recém começou.
JENS – POA-RS
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