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Sarney, a saga de um farsante

30/08/2009

Texto de Jens – www.tocadojens.blogspot.com

A história se repete como farsa. Será mesmo?

ato-falho.jpgOs políticos brasileiros, sempre em busca da originalidade, encarregaram-se de modificar a assertiva cunhada pelo historiador marxista: aqui, do lado debaixo da Linha do Equador, depois da tragédia e da farsa, o ciclo se completa com a piada, o deboche escancarado. Observando as regras do bom jornalismo (atualmente em desuso na grande imprensa) uma afirmação assim tão categórica precisa ser corroborada pela verdade factual. Então, vamos lá.

A tragédia.

Em 15 de janeiro de 1985, o mineiro Tancredo Neves (PMDB) foi eleito presidente do Brasil pelo Colégio Eleitoral, tendo José Sarney como vice-presidente. Na véspera da posse, 14 de março, Tancredo baixou o hospital, gravemente doente. Em 21 de abril (na mesma data da morte de Tiradentes), Tancredo faleceu vítima de infecção generalizada, aos 75 anos. Terminava a tragédia e começava o embuste.

A farsa – o início

As novas gerações talvez não saibam, por isto é bom relembrar as origens de José Sarney na política. Nhonhô Sarney despontou na política nacional nos anis 60, alinhado à União Democrática Nacional (UDN – pra melhor entender, hoje seria uma junção de PSDB e DEM). Inicialmente apoiou João Goulart, então no poder. Depois do golpe de 64, passou para a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), o partido que apoiava a ditadura militar. Governou o Maranhão (1966-1971, sob a condescendência dos generais de plantão) e cumpriu dois mandatos como senador (1971-1985), tornando-se um dos principais representantes políticos do regime militar. Em 1979. Após o fim do bipartidarismo, participou da fundação do PDS (Partido Democrático Social), que igualmente apoiava os gorilas fardados.

A farsa – o oportunista

Em 1984, quando o vento mudou de lado (isto é, as cada vez mais vigorosas mobilizações populares prenunciavam o fim da ditadura militar), Sarney deixou o PDS e ingressou no PFL (Partido da Frente Liberal – hoje o DEM) e, depois de costurar uma aliança com o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), foi indicado como vice-presidente na chapa de Tancredo Neves, pela Frente Liberal. Em virtude do falecimento de Tancredo, assumiu a presidência no dia 15 de abril de 1985.

Pra ficar bem claro: Sarney apoiou a ditadura – período em que consolidou o seu império midiático e político no Maranhão – e quando pressentiu o início do fim se bandeou para a oposição, aconchegando-se no colo do PMDB (o comportamento clássico do rato que abandona o navio que naufraga). Assim foi alçado à presidência da República por conta de uma fatalidade, a morte de Tancredo Neves. Resumindo: o que a nação não queria aconteceu: o primeiro presidente civil, depois do regime militar, foi um fiel discípulo da caserna transmutado de democrata. Bendita diverticulite (doença que matou Tancredo Neves).

A farsa – o golpista

No poder, o governo de José  Ribamar Ferreira de Araújo Costa (nome que o coronel recebeu na pia batismal) caracterizou-se pela mediocridade nas políticas sociais e a incompetência na política econômica. Depois de quatro planos econômicos – Cruzado I e II, Bresser e Plano Verão – Maílson da Nóbrega, então o derradeiro ministro da Fazenda de Sarney, hoje conceituado palpiteiro econômico, deixou o país com uma inflação de 2,751%, 80% ao mês. As elites, porém, não tiveram do que se queixar. A Rede Globo, por exemplo, consolidou o seu império midiático, graças ao beneplácito de Antonio Carlos Magalhães (o malfadado ACM), ministro das Comunicações de Sarney (cuja emissora de tevê no Maranhão, é bom registrar, até hoje é associada da Globo.

Depois de garantir mais um ano no poder (foi eleito para quatro e ficou cinco anos), em 1990, após a transmissão do cargo de Presidente a Fernando Collor de Melo em 1990, Sarney transferiu seu domicílio eleitoral para o recém-criado estado do Amapá, antigo território, e candidatou-se e venceu no Senado Federal no mesmo ano.

bier_eticasenado.jpgDay after – impunidade sempre

Segundo denúncias de imprensa da época, a transferência de domicílio eleitoral e a consequente eleição, seria para impedir que Collor entrasse processo para vasculhar irregularidades durante a presidência do coronel.. Sarney reelegeu-se no Senado em 1998 e 2006 e desde então, é representante do Amapá no Senado há quase vinte anos.

Nas eleições de 2006, embora com o mais alto índice de rejeição dentre os candidatos ao Senado pelo Amapá nas pesquisas pré-eleitorais, Sarney venceu o pleito e manteve-se no Senado Federal com 53,8% dos votos válidos, contra 43,5% da segunda colocada, Maria Cristina Almeida (PSB), e 1,2% da terceira colocada, Celisa Capelari (PSOL).

Os canalhas envelhecem (e continuam infames)

Em sua atividade legislativa, Sarney tradicionalmente apoiou o governo, como fez na época do presidente João Goulart antes do golpe militar. Posteriormente, integrou-se à Aliança Renovadora Nacional após o golpe de 1964. Na década de 1980, Sarney, juntamente com políticos do PDS, como Antônio Carlos Magalhães e Marco Maciel, deixou o governo para fundar a Frente Liberal (atual DEM) e foi candidato a vice-presidente na chapa de Tancredo Neves. Anos depois, após o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, Sarney aliou-se ao sucessor, Itamar Franco.

bier_reizinho_web.jpgPosteriormente, foi aliado do presidente Fernando Henrique Cardoso, elegendo-se Presidente do Senado com seu apoio, e hoje é aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O deboche final

Em 2 de fevereiro de 2009, foi eleito e tomou posse como Presidente do Senado Federal do Brasil, pela terceira vez. Sarney foi eleito com 49 dos 81 votos dos senadores, derrotando o adversário do PT, Tião Viana.

Como bem observou Nélson Rodrigues, os canalhas também envelhecem. No Brasil, mesmo decrépitos, eles resistem e não largam o osso.

Cabe a nós – eu e você que me lê – trabalhar para interromper este circulo perverso. O primeiro passo é cortar a cabeça da hidra:

#forasarney!!!

Jens

Mais do colaborador Jens:

www.tocadojens.blogspot.com
www.safergs.com.br
www.muffuletta.com.br

Panelaço Nacional em Sete de Setembro, 17h

26/08/2009

O Panelaço – Rubem Alves

Bachelard observou que  “a lembrança pura não tem data. Tem uma estação.”

É a estação que constitui a marca fundamental das lembranças. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável?”
Compreendi as palavras de Bachelard ao me lembrar daquele dia memorável, que não pode ser esquecido.
Era o fim de tarde, quando a luz do dia que se vai se mistura com o escuro da noite que chega e tudo fica indefinido. A indefinição ficava mais indefinida ainda pela chuva fina que começava a cair. Foi então que aconteceu:
um barulho surdo, metálico, sem melodia e sem ritmo, começou a subir das ruas, dos apartamentos, dos escritórios, barulho que não combinava com o momento… Fiquei assustado porque não tinha na minha memória registro de qualquer barulho urbano que se assemelhasse àquele que enchia a tarde-noite de São Paulo.
Eu estava no quinto andar. Tomei o elevador para o térreo. Queria saber o que estava acontecendo.
Quando, no térreo, saí à rua, os rostos sorridentes dos motoristas de táxi me fizeram lembrar.
Os motoristas cansados, ao fim do dia, usam as buzinas para exprimir sua irritação.
E eles estavam buzinando sem parar, mas sem que houvesse nenhuma razão de tráfego para tal.
Suas buzinas não eram irritadas. Buzinavam e sorriam. Parecia que estavam felizes.
Aí me lembrei e entendi. Olhei para cima e vi de onde vinha o barulho metálico:
as janelas e varandas dos apartamentos estavam cheias de pessoas que batiam panelas com colheres.
O barulho era ensurdecedor e lindo, musicalmente… Aquele barulho era o canto de um povo.
A chuva caia um pouco mais forte, mas as pessoas que andavam pelas ruas não demonstravam contrariedade.
Elas sorriam com a água a lhes escorrer pelo rosto. Era o panelaço: uma cidade sem armas que buzinava e batia tampas e panelas para derrotar um exército armado, à semelhança do ocorrido na cidade de Jericó cujas muralhas caíram pelo som das trombetas.
Chorei e me disse: “É muito bonito! Uma estória para ser contada e repetida! As crianças precisam saber…”
E foi ali que se formou na minha imaginação a estória que escrevi O flautista mágico .
No artigo “Os Pássaros”, dirigido às crianças, publicado no dia 21.07.09 nessa sessão, eu sugeri que, olhando para nossos sólidos representantes no congresso, um escorando o outro, fica claro que a maioria deles não está disposta a trocar seu menu de costeletas, lombos e lingüiças por uma modesta dieta vegetariana de alface e cenoura…
Numa alusão ao filme do Hitchcock, eu disse que era preciso chamar os pássaros…
Eles só sairão do castelo de impunidade onde se encontram se os pássaros os obrigarem.
Pássaros fomos nós, naquela tarde do panelaço contra a ditadura. Pássaros poderemos ser nós, agora…
Recebi agora, via internet, a convocação dos pássaros, um manifesto do qual vou citar alguns trechos.
“Esta é a hora: 7 de setembro às 17 horas! (…)
No dia 7 de setembro às 17 horas vamos paralisar o Brasil.
Às 17 horas vamos promover um panelaço! Exija que as redes de televisão, rádios, jornais, revistas e o político de sua confiança divulguem esse movimento. Mobilize sua escola, seu sindicato, sua igreja, seus amigos.
No dia 7 de setembro, às 17 horas, estenda na janela uma bandeira, uma toalha, um pano qualquer!
Bata panelas! Toque cornetas! Se você estiver no carro, buzine!
Vamos fazer a nação tremer por um minuto!”
As hienas e os gambás fugirão dos pássaros!
Eu vou buzinar, vou tocar sino, vou bater tampa e panela,
estender bandeira, tocar a Nona Sinfonia…
Ninguém poderá dizer que eu morri sem espernear…

O Panelaço – Rubem Alves

Bachelard observou que “a lembrança pura não tem data. Tem uma estação.

É a estação que constitui a marca fundamental das lembranças. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável?”
Compreendi as palavras de Bachelard ao me lembrar daquele dia memorável, que não pode ser esquecido.
Era o fim de tarde, quando a luz do dia que se vai se mistura com o escuro da noite que chega e tudo fica indefinido. A indefinição ficava mais indefinida ainda pela chuva fina que começava a cair. Foi então que aconteceu:
um barulho surdo, metálico, sem melodia e sem ritmo, começou a subir das ruas, dos apartamentos, dos escritórios, barulho que não combinava com o momento… Fiquei assustado porque não tinha na minha memória registro de qualquer barulho urbano que se assemelhasse àquele que enchia a tarde-noite de São Paulo.
Eu estava no quinto andar. Tomei o elevador para o térreo. Queria saber o que estava acontecendo.
Quando, no térreo, saí à rua, os rostos sorridentes dos motoristas de táxi me fizeram lembrar.
Os motoristas cansados, ao fim do dia, usam as buzinas para exprimir sua irritação.
E eles estavam buzinando sem parar, mas sem que houvesse nenhuma razão de tráfego para tal.
Suas buzinas não eram irritadas. Buzinavam e sorriam. Parecia que estavam felizes.
Aí me lembrei e entendi. Olhei para cima e vi de onde vinha o barulho metálico:
as janelas e varandas dos apartamentos estavam cheias de pessoas que batiam panelas com colheres.
O barulho era ensurdecedor e lindo, musicalmente… Aquele barulho era o canto de um povo.
A chuva caia um pouco mais forte, mas as pessoas que andavam pelas ruas não demonstravam contrariedade.
Elas sorriam com a água a lhes escorrer pelo rosto. Era o panelaço: uma cidade sem armas que buzinava e batia tampas e panelas para derrotar um exército armado, à semelhança do ocorrido na cidade de Jericó cujas muralhas caíram pelo som das trombetas.
Chorei e me disse: “É muito bonito! Uma estória para ser contada e repetida! As crianças precisam saber…”
E foi ali que se formou na minha imaginação a estória que escrevi O flautista mágico .
No artigo “Os Pássaros”, dirigido às crianças, publicado no dia 21.07.09 nessa sessão, eu sugeri que, olhando para nossos sólidos representantes no congresso, um escorando o outro, fica claro que a maioria deles não está disposta a trocar seu menu de costeletas, lombos e lingüiças por uma modesta dieta vegetariana de alface e cenoura…
Numa alusão ao filme do Hitchcock, eu disse que era preciso chamar os pássaros…
Eles só sairão do castelo de impunidade onde se encontram se os pássaros os obrigarem.
Pássaros fomos nós, naquela tarde do panelaço contra a ditadura. Pássaros poderemos ser nós, agora…
Recebi agora, via internet, a convocação dos pássaros, um manifesto do qual vou citar alguns trechos.
“Esta é a hora: 7 de setembro às 17 horas! (…)
No dia 7 de setembro às 17 horas vamos paralisar o Brasil.
Às 17 horas vamos promover um panelaço! Exija que as redes de televisão, rádios, jornais, revistas e o político de sua confiança divulguem esse movimento. Mobilize sua escola, seu sindicato, sua igreja, seus amigos.
No dia 7 de setembro, às 17 horas, estenda na janela uma bandeira, uma toalha, um pano qualquer!
Bata panelas! Toque cornetas! Se você estiver no carro, buzine!
Vamos fazer a nação tremer por um minuto!”
As hienas e os gambás fugirão dos pássaros!
Eu vou buzinar, vou tocar sino, vou bater tampa e panela,
estender bandeira, tocar a Nona Sinfonia…
Ninguém poderá dizer que eu morri sem espernear…

A Ilusão do Sufrágio Universal – Mikhail Bakunin

24/08/2009
Um pequeno texto para reflexão sobre os atuais acontecimentos,
e apesar de ter mais de 100 anos, qualquer semelhança
com a nossa realidade não é mera coisncidência.
Relsi

Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. Mas infelizmente esta era uma grande ilusão e a compreensão da ilusão, em muitos lugares, levou à queda e à desmoralização do partido radical. Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados. Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos estabelecidos. Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados e corruptos. Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.

Por mais democráticos que sejam seus sentimentos e suas intenções, atingida uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma forma que um professor vê seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De um lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela posição de superioridade que decorre da superioridade do professor, exercite ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de dominação. Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam, enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que dominam. Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no mundo. Isto é, o que também explica como e porque os democratas mais radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente consideradas atos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a mudança de posição e, portanto, de perspectiva.

Na suíça, assim como em outros lugares, a classe governante é completamente diferente e separada da massa dos governados. Aqui, apesar da constituição política ser igualitária, é a burguesia que governa, e é o povo, operários e camponeses, que obedecem suas leis. O povo não tem tempo livre ou educação necessária para se ocupar do governo. Já que a burguesia tem ambos, ela tem de ato, se não por direito, privilégio exclusivo. Portanto, na Suíça, como em outros países a igualdade política é apenas uma ficção pueril, uma mentira.

Separada como está do povo, por circunstâncias sociais e econômicas, como pode a burguesia expressar, nas leis e no governo, os sentimentos, as idéias, e a vontade do povo? É possível, e a experiência diária prova isto. Na legislação e no governo, a burguesia é dirigida principalmente por seus próprios interesses e preconceitos, sem levar em conta os interesses do povo. É verdade que todos os nossos legisladores, assim como todos os membros dos governos cantonais são eleitos, direta ou indiretamente, pelo povo.

É verdade que, em dia de eleição, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política, deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminada a eleição, o povo volta ao trabalho, e a burguesia, a seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram e não se reconhecem mais. Como se pode esperar que o povo, oprimido pelo trabalho e ignorante da maioria dos problemas, supervisione as ações de seus representantes? Na realidade, o controle exercido pelos eleitores aos seus representantes eleitos é pura ficção, já que no sistema representativo, o controle popular é apenas uma garantia da liberdade do povo, é evidente que tal liberdade não é mais do que ficção.